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As linhas apresentadas
durante este estudo são aquelas com as quais trabalhamos em nossa casa, mas não
são as únicas. Existem também as linhas dos malandros, mineiros, marinheiros,
boiadeiros, exus mirins, linha d’água, etc.
Cada terreiro atuará
com as linhas necessárias ao desempenho de suas funções.
As linhas de um
terreiro
Muitas pessoas já me
perguntaram: por que vocês não trabalham, por exemplo, com boiadeiros?
A resposta é sempre a
mesma:
- Porque nunca se
apresentou um para mim.
Eu sempre tive largo
contato com as linhas dos caboclos e dos pretos-velhos em todos os terreiros
que já visitei ou já trabalhei, de modo que estas linhas se apresentaram, para
mim, como as linhas-mestras do meu trabalho na religião.
Contudo, será assim com
todas as pessoas?
Certamente, não!
Existem médiuns que
desde cedo vão desenvolver afinidade com a linha dos baianos, por exemplo, e
que terão como guia-chefe um baiano e todo seu trabalho será dando prioridade a
esta linha. Então, afinal de contas, o que determina as linhas de um terreiro?
Essencialmente: a
tarefa a ser desempenhada por aquela casa.
Imagine um determinado
hospital numa cidade grande. Ele certamente não possui todas as modalidades
médicas existentes no mundo, mas deve possuir, pelo menos, aquelas modalidades
necessárias para atender as demandas das pessoas daquela localidade.
Noutro ponto da cidade,
pode haver outro hospital que tenha modalidades médicas em comum com o primeiro
hospital, mas que se diferencia por possuir outras que o primeiro não possui e
que são adaptadas, por sua vez, as necessidades das pessoas do local em que se
encontra.
É por um sistema
semelhante que cada terreiro se estrutura para atender as necessidades da
localidade onde está inserido. Por isso os terreiros não são (e não precisam ser)
todos iguais, quer no que se refere ao culto, quer no que se refere às linhas
de trabalho.
Equipe espiritual
Quando um médium
reencarna, ficam do outro lado as entidades que formam (ou formarão) a sua
equipe espiritual de trabalho, isto é, a equipe espiritual que atuará através
da sua mediunidade em conformidade com a tarefa que ele executará na Terra.
Assim, quando este
médium estiver apto ao exercício mediúnico e acabar chegando em algum terreiro,
gradativamente, cada um de seus guias espirituais se apresentarão, esperando o
momento em que esteja maduro o suficiente para poderem atuar e darem
cumprimento ao projeto de trabalho que foi, anteriormente, traçado pela
espiritualidade superior.
É por esta razão que o
compromisso mediúnico é uma das coisas mais importantes da vida de alguém. Contudo, abordaremos
isso mais tarde.
Por enquanto, o que
importa saber é que as linhas espirituais que atuarão através de um médium,
quase sempre, já estão definidas antes da sua encarnação, porém, dependendo da
extensão do trabalho realizado, novas podem se apresentar, se forem
necessárias.
Contudo, justamente por
esse planejamento anterior, onde cada médium já tem muito bem definido quais
linhas atuarão através de si, muitos sentem enormes dificuldades se forem
submetidos a um desenvolvimento com uma linha com a qual não possui essa
ligação prévia.
Todas as linhas?
Muitos médiuns novatos
se mostram ansiosos para experimentar a energia de diferentes linhas, pois
querem saber como será, o que perceberão, como ocorrerá a incorporação, etc.
É um desejo muito
natural. Contudo, tenho aprendido com os guias que menos é mais.
Em todas as casas que
já estive onde se trabalhavam com muitas linhas, observei o mesmo fenômeno: mistura
na forma com que as entidades se apresentam.
O médium incorpora, mas
você não sabe que linha ele incorporou, pois passa a agir e a falar com formas
próprias de outras linhas, exemplo: incorpora um baiano que fala “eixe” e
que as vezes brada; enquanto incorpora um caboclo com sotaque de baiano e que
fala “axé”.
O que acontece?
Animismo? Mistificação?
Na verdade, creio que
seja falta do que denomino como “amplitude mental”.
Incorporar uma
entidade, com sua própria personalidade, trejeito e preferências, é uma senhora
tarefa para o cérebro humano que abrigará, durante o transe, duas
personalidades diferentes: a do médium e a do guia.
Creio que se um dia
houver um estudo cerebral com mapeamento neural em pessoas antes e depois do
desenvolvimento mediúnico, se perceberá que a estrutura do cérebro se modifica,
pois para dar guarida às personalidades diferentes (creio eu), o cérebro chega
a modificar estruturas, facilitando o transe mediúnico.
Contudo, somos ainda
espíritos em início de jornada evolutiva, muito distantes do fim dessa
caminhada. Nossa “amplitude mental” e nossa “plasticidade cerebral” são
severamente limitadas, de modo que nunca vi um único caso em que um médium
incorporasse mais de sete linhas e conseguisse o mesmo desempenho em todas elas.
Pelo contrário: vejo
médiuns incorporarem bem duas, três linhas de trabalho, ao passo que incorporam
mais ou menos outras duas ou três linhas e se passam de sete entidades, o
resultado quase sempre é uma miscelânea não identificável de personalidades que
se misturam e se perpassam umas às outras.
E comigo não é
diferente...
A concepção de que o
médium na Umbanda deve incorporar todas as linhas, na verdade, é bastante
recente. Em boa parte da história da religião o médium trabalhava apenas com
duas, quando muito, três entidades diferentes.
Assim, embora
compreensível o desejo dos médiuns em incorporarem outras linhas que não sejam
as que trabalham frequentemente, eu sempre lhes digo: mais é menos.
Por o guia para
trabalhar
É comum ouvirmos que o
médium precisa desenvolver tal linha por que o guia precisa trabalhar. E
enquanto o médium não desenvolve, o que o guia fica fazendo o quê? Jogando
dominó em Aruanda?
É uma infantilidade
pensar que os guias só atuam quando estão incorporados, pelo contrário, eles
possuem imensos afazeres no mundo espiritual, estão quase sempre ocupados, de
modo que, incorporar em um médium para atender é apenas uma face do trabalho
espiritual da entidade e não todo o trabalho que ela executa.
Assim, o
desenvolvimento mediúnico não é um movimento que deve ser pensado no sentido de
colocar o “guia para trabalhar”, mas ao contrário, é onde se coloca o médium
para trabalhar.
Conclusão
Como dito no início do
texto, cada médium tem sua equipe espiritual e se ligará mais particularmente a
uma ou outra linha de trabalho. Não há nada de errado nisso.
Não importa se sua
ligação se dá mais diretamente com o preto-velho ou com o exu. Importa que
incorpore bem, seja que linha for e consiga fazer um bom trabalho.
Até a próxima aula!
Leonardo Montes

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