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O desenvolvimento mediúnico é um processo de aprendizagem
muito importante na vida do médium, do terreiro e da Umbanda. É o processo que
garante a continuidade do terreiro e mesmo da religião, pois como uma religião
essencialmente mediúnica, fundada e sustentada na mediunidade, a Umbanda só
pode ser passada geração após geração graças ao desenvolvimento mediúnico.
Chamado
Conforme já estudamos em outros capítulos, o médium é preparado
no mundo espiritual para exercer a sua tarefa no mundo físico. Assim, trás em
si o gérmen da mediunidade que, em algum momento, desabrochará, dando sinais
pacíficos ou tormentosos, conforme a natureza do próprio médium.
Seja como for, os médiuns que devem atuar na Umbanda
chegarão até um terreiro e receberão, das entidades, a confirmação da sua
faculdade. Às vezes, as entidades lhe oferecem na hora a oportunidade de
trabalhar, em outras ocasiões, demorará ainda algum tempo para que o convite
chegue. Seja como for: quem tiver que se desenvolver, receberá este convite.
Neste processo, é muito importante que os médiuns encontrem
um bom terreiro, uma casa de caridade, de fraternidade, onde não se cobra para
atender, ensinar ou desenvolver, a fim de que possam fazer um correto
desenvolvimento, já que, infelizmente, são numerosos os relatos daqueles que
tendo começado pela contramão, frequentemente, penam para reaprender quando
finalmente encontram uma boa casa...
Antes de aceitar o compromisso, é bom que o médium medite
se realmente quer trilhar este caminho, pois não existe ex-médium: uma vez
desenvolvido, a mediunidade estará sempre gritando em sua cabeça para ser
trabalhada. Não há retorno!
Desenvolvendo o médium
Muitas pessoas acham que desenvolver a mediunidade é apenas
ensinar o médium a incorporar. Porém, isto é apenas uma parte do processo. A
parte mais difícil, mais delicada, é o desenvolvimento do médium, isto é, a
educação mediúnica da pessoa, a assimilação dos valores do terreiro e, acima de
tudo, o despertar para uma vida nova.
Desenvolver o médium, quase sempre, leva mais tempo do que
desenvolver a mediunidade. Muitas vezes vi médiuns mediunicamente prontos, mas
emocionalmente ainda imaturos, fazendo com que seu processo se alongasse muito
mais tempo do que o necessário, não por causa da mediunidade, mas em razão do
seu comportamento.
Assim, digo aos médiuns iniciantes: não foquem tanto na
incorporação, em si. Foquem em aprender: aprender as normas da casa, aprender
as diretrizes para realização de um bom trabalho, aprender quando falar e
quando ouvir, aprender os fundamentos, os princípios básicos, essas coisas
todas são muito mais importantes do que a incorporação, propriamente, pois são elas
que nortearão uma prática sadia, ao longo de toda a vida.
Os médiuns que se desenvolverem neste quesito, abrindo seus
corações para uma vida nova, uma vida de valores espirituais que se refletirão
em seus comportamentos, no dia-a-dia, sem dúvida alguma, farão um belo
desenvolvimento mediúnico.
Desenvolvendo a mediunidade
O gérmen da mediunidade, estando no próprio médium, precisa
apenas das condições adequadas para começar a brotar. É justamente esta a
função de um terreiro: propiciar o ambiente adequado para que a semente brote,
cresça e, futuramente, dê frutos.
Por esta razão, é fundamental que o desenvolvimento seja
feito em um terreiro, pois este é o ambiente preparado para isso, com todas as
firmezas necessárias, além da presença de pessoas mais experientes que ajudarão
o médium em seus passos iniciais e em suas dúvidas.
Muitas pessoas, porém, insistem em fazer uma espécie de
“autodesenvolvimento” ou um “desenvolvimento em casa” com ajuda de algum médium
mais experiente... Contudo, o resultado destas práticas, quase sempre, são um desastre.
Uma vez estabelecido o ambiente adequado, isto é, o espaço
do terreiro, os médiuns iniciantes se colocarão dentro da corrente e estarão
aptos a iniciar o processo de incorporação que consiste, basicamente, em:
irradiação, incorporação, firmeza e trabalho.
Irradiação
A irradiação não é a incorporação propriamente, mas o
primeiro estágio dela. É o momento em que o médium e a entidade estão com seus
chakras em fase de alinhamento, quando, então, o médium recebe em seu corpo as
energias da entidade, sentindo um arrepio, queda de pressão, tremores, etc.
Costumo dizer que a incorporação é como a quinta marcha num
carro comum e que a irradiação é a primeira, isto é, o ponto inicial para tirar
o carro da inércia.
Este processo de alinhamento dos chakras não é repentino na
maioria dos casos, levando alguns meses para acontecer de forma satisfatória,
pois a princípio, o corpo tente a rejeitar essa ligação como um mecanismo de
defesa, a fim de manter a integridade do próprio corpo.
Nesta fase, é fundamental que o médium se entregue e confie
na casa onde está se desenvolvendo, procurando seguir corretamente as
diretrizes e normas da mesma, sem pressa para concluir esta fase que deve levar
o tempo necessário.
Incorporação
Ao cabo de alguns meses, se o médium seguir corretamente as
instruções, ele deve ser capaz de incorporar, isto é, receber o seu guia. Nesta
fase, mais do que simplesmente alinhar, os chakras estarão conectados. É a fase
em que o médium se acostuma com a energia do guia e o guia com a energia do
médium.
Inicialmente, a ligação será sutil, de modo que o médium
ficará confuso, pensando se é ele ou a entidade quem está agindo. Contudo, com
o passar dos meses, a incorporação será cada vez mais forte e robusta.
Ao cabo de algum tempo, a incorporação estará firme o
suficiente para que a entidade risque seu ponto e faça uso de algum elemento
que, a princípio, deve ser lhe oferecido em pequenas doses.
Quando a incorporação estiver forte o suficiente para que a
entidade diga seu nome corretamente, risque seu ponto corretamente, passa-se a
próxima etapa: firmeza.
Firmeza
A firmeza é uma etapa muito importante no desenvolvimento.
Ela revela que o médium já caminhou bastante, já progrediu em seu
desenvolvimento mediúnico e está apto para a última fase do seu
desenvolvimento.
Nesta etapa, o fundamental é manter a incorporação pelo
maior tempo possível, afinal, não adianta nada incorporar direito, riscar
ponto, fumar charuto e só aguentar ficar meia hora em transe com uma longa
assistência para ser atendida...
Por esta razão, na firmeza, o médium incorpora, risca seu
ponto e fica quieto no seu canto, conversando mentalmente com a entidade. É o
momento de estreitar a relação com o guia, receber seus conselhos, orientações,
diretrizes.
A incorporação ainda não está robusta o suficiente para quem sejam dados conselhos ou orientações, por isso, é fundamental que o médium aprenda a respeitar o tempo e permaneça em silêncio, muito embora, sua gritante vontade de conversar...
É aqui (pelo menos em nossa casa), que inicia o
desenvolvimento com a esquerda, processo que consideramos muito importante,
pois as entidades da esquerda, por terem uma energia mais densa, são sempre
mais fáceis de incorporar. Por isso, é preciso que o médium esteja incorporando
bem pelo menos preto-velho e caboclo para só então chegar às entidades da
esquerda.
Quando o médium conseguir permanecer incorporado até o fim
dos trabalhos na firmeza, ele estará pronto para ser liberado para a linha de
passe e consulta.
Em nossa casa, o desenvolvimento leva, em média, um ano e
meio a dois anos para ser concluído. Fazemos desenvolvimento duas vezes ao mês.
Este é o tempo médio, mas não há limites: há quem demore mais ou menos.
Trabalho
Depois de todas as etapas percorridas, o médium finalmente
está pronto para ir para a linha de passes, isto é, pronto para receber seus
guias que atenderão a consulência.
Em nossa casa, não há nenhuma cerimônia para isso e,
normalmente, os médiuns são pegos de surpresa: eles chegam achando que vão
apenas firmar e, em dado momento, o chefe espiritual avisa que começarão
naquele dia.
A maioria pensa que não está pronta e, se deixasse a
critério dos próprios médiuns, alguns passariam a vida inteira achando que não
estão prontos... É o drama do médium: a princípio sofre com a ansiedade e,
depois, não se sente pronto para começar.
Seja como for, o fim do desenvolvimento mediúnico é o fim
apenas da obrigação básica, primária, entre o médium e o terreiro. A partir de
então, o médium é responsável, juntamente com seus guias, sobre sua própria
vida e sobre sua mediunidade.
Contudo, este aprendizado não cessa jamais: há sempre algo
a aprender e os anos trazem magníficas oportunidades de aprendizagem.
Entretanto, vale a pena refletir em algo que O Velho sempre
diz:
- Acender a chama é fácil, manter a chama acesa é difícil.
E é mesmo!
Até a próxima aula!
Leonardo Montes

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