Em muitas culturas antigas, os
homens agradeciam a fartura de alimento para suas tribos repartindo com as
divindades o fruto de seu trabalho. Assim nasceram as celebrações religiosas em
que se oferendavam comidas, bebidas e mesmo o sangue de animais criados para
alimentar as pessoas da comunidade.
Nestas celebrações, realizavam-se
muitas festas, com muita fartura, dividindo o profano e o sagrado o mesmo
espaço, pois não havia real separação entre eles.
Em praticamente todas as
culturas encontramos celebrações religiosas em que se oferendavam coisas em
agradecimento às colheitas, desde as festas dionisíacas entre os gregos aos bacanais romanos.
Aliás, o próprio dízimo das
igrejas teve aí a sua origem e podemos até mesmo encontrar este referencial na
bíblia:
“Todos os dízimos da terra - seja dos cereais, seja das frutas - pertencem ao Senhor; são consagrados ao Senhor.” Levítico 27:30.
Com o passar do tempo,
contudo, as oferendas passaram de “simples agradecimentos” a meios de
“barganha” com as forças espirituais.
É esta, aliás, a visão que
predomina ainda hoje na Umbanda...
Umbanda
A maioria dos umbandistas
possui uma visão muito estreita sobre as oferendas, resumindo-as a um processo mágico. Por exemplo:
Se acendem uma vela para o
Anjo de Guarda, imaginam que estarão imunes de resfriado à bala perdida;
Se oferendam para Oxóssi na
mata, imaginam que na próxima semana deverão receber uma promoção no serviço;
Se arriam um padê para exu,
pensam que estarão livres dos obsessores, das pessoas invejosas, etc.
Além disso, também é muito
comum a concepção de que a “oferenda que encanta os olhos atrai a atenção do
Orixá”, assim, ao invés de fazer uma oferenda simples, as pessoas
frequentemente esbanjam um grandioso banquete, como se o “tamanho” da oferenda
despertasse maior interesse do Orixá sobre a causa do sujeito.
Em suma: é um processo de
barganha... Oferece-se alguma coisa, querendo algo muito maior em troca!
Em nossa casa, porém, as
entidades sempre ensinaram um ponto de vista bem diferente: a oferenda é a
forma material de algo imaterial. Explico:
A oferenda, que deve ser
sempre simples, é a representação dos sentimentos daquele que oferenda. Assim,
se uma pessoa é filha de Oxóssi, não fará uma oferenda a ele pedindo fartura,
dinheiro, abundância, mas fará uma oferenda a ele pedindo forças, inspiração,
auxílio! Como filho de Oxóssi, ao realizar uma oferenda com toda sua vontade e
fé, ele se coloca na mesma sintonia de Oxóssi e, certamente, será respondido,
obterá a força necessária para lutar em busca daquilo que deseja!
Os Orixás não são forças
mágicas, gênios da lâmpada a quem basta arriar uma comida aqui e pedir ali um
milagre!
Vamos a outro exemplo:
Certa feita, os membros do
terreiro queriam fazer uma oferenda à Iemanjá, semelhante a estas que vemos na
internet. Já estavam planejando as comidas, o barquinho, as bugigangas, quando
uma preta-velha, Vó Cambinda (salve!), com todo carinho e paciência do mundo, começou
a conversar, orientando, rodeando, até que disse:
- O fi, as oferendas que
suncês tão querendo fazê vai ficá mesmo muito formosa, mas nega véia acha que
nossa mãe Iemanjá vai ficá mais satisfeita se ocêis juntá tudo essas comida e
dá pras crianças pobres.
Foi um balde de água fria, mas
uma poderosa lição:
Iemanjá, aquela que
representa nossa grande mãe, não quer barquinho e espelhos para sujar sua
praia, quer ver as crianças deste Brasil sem fome.
Nunca mais se falou em
barquinho para Iemanjá.
Simplicidade
As entidades sempre me
ensinaram que as oferendas mais importantes para os Orixás e mesmo para os
guias, são aquelas que habitam nosso coração: nossa fé, nossa vontade sincera,
nosso desejo de nos tornarmos pessoas melhores, nossa dedicação ao trabalho
espiritual, isto compõe, verdadeiramente, a oferenda que eles mais apreciam.
Contudo, se sentirmos vontade
de materializar esses sentimentos em algo, devemos fazê-lo sempre da forma mais
simples possível, sem exagero e, principalmente, sem pesar no bolso.
A Vó Cambinda sempre nos
falava que via com tristeza casas que impunham aos filhos a necessidade de
contribuírem financeiramente para a realização de grandes oferendas, quase
sempre, deixando os mais pobres constrangidos por não terem de onde tirar
dinheiro...
Veja abaixo dois exemplos de oferendas
em nossa casa. Uma de Oxóssi e outra de Preto-Velho:
![]() |
| Oferenda para Oxóssi da Casa de Umbanda União |
![]() |
| Oferenda para os pretos-velhos da Casa de Umbanda União. |
Estas oferendas são compostas
da seguinte forma: cada membro da casa leva, dentro dos fundamentos de cada
comida (isso é assunto para quem está em terreiro), aquilo que esteja ao seu
alcance: uma fruta, duas frutas, três frutas, etc. E se porventura alguém não
puder contribuir, não há o menor problema. A soma de tudo aquilo que os membros
da casa levam é deixado no congá para ser abençoado e, ao final da gira, tudo é
repartido com todos: cada um come alguma coisa, levando para si, além do
alimento, todo axé que as entidades, em nome dos Orixás, ali depositaram.
Fazemos uma oferenda
coletiva, sempre dentro do terreiro, para cada um dos Orixás cultuados na casa.
Somente uma oferenda por Orixá ao longo do ano, nada mais!
Conexão
Outro tipo de oferenda que
eventualmente podemos necessitar é o de praticar um certo retiro para nos
conectarmos às forças superiores. Continuemos no exemplo de Oxóssi.
Suponhamos que eu comece a
sentir vontade de me conectar a Oxóssi. Por alguma razão estranha, dentro de
mim, sinto que preciso buscar essa força.
Para consegui-lo, dirijo-me a
uma mata tranquila, acendo uma vela, acendo um incenso, deixo ao pé de uma
árvore algumas frutas e permaneço algum tempo ali sentado observando o vento
soprar nos galhos, os pássaros cantando, o cheiro da terra e, em oração, faço
os meus agradecimentos e pedidos, aguardando pelo menos meia hora em meditação
e oração, sentindo a energia do local ao meu redor e certamente recebendo o
amparo espiritual que necessito.
Depois, apago a vela, retiro
tudo que não for de decomposição natural, deixando o local tão limpo quanto eu
o encontrei. As frutas serão o meu agradecimento a este momento de
meditação/oração à própria mata, que através de processos naturais, fará a
decomposição das mesmas.
Veja: não é só chegar, arriar
um monte de comidas, acender uma vela, cantar um ponto, virar as costas e
largar a bagunça... É preciso simplicidade e conexão!
Em casa
Uma pergunta muito comum é: posso
oferendar em casa? A resposta é: sim, desde que você possua conhecimento. Caso
contrário, melhor deixar para o futuro, pois uma pessoa desestruturada, num lar
perturbado, ao sair oferendando de qualquer jeito, poderá atrair qualquer
coisa...
Contudo, quando há
conhecimento de causa e sentimento verdadeiro, é perfeitamente possível e, por
vezes, muito útil que assim façamos. Relatarei mais um caso:
Um senhor, muito humilde, habituou-se
a colocar, todas as manhãs, uma xícara de café para um preto-velho que lhe
atendeu em um momento de aflição e a quem se tornou eternamente grato.
Toda santa manhã, lá estava a
xícara em cima da geladeira, oferecida com amor, carinho e oração.
Quando soube do caso, recorri ao
Velho (Pai Cipriano), perguntando como quase todo leigo:
- Mas qual a razão disso, a
entidade irá beber o café?
O Velho riu, cachimbou e
disse:
- Não, filho. Mas, através do
café ali posto, terá acesso ao coração daquele filho.
Tempos depois, este senhor
desencarnou e vi, com lágrimas nos olhos, o referido preto-velho a quem ele
fazia esta pequena oferenda matinal com lágrimas nos olhos dizendo:
- E agora, quem colocará café
pra mim?
A ternura daquelas palavras
não pode ser descrita na singeleza de um texto como este. Fica para a
imaginação de cada um...
Meio Ambiente
Ao oferendar na natureza, é
preciso não esqueçamos de que nenhuma oferenda real pode ser feita se agredirmos
a mãe terra. Se no passado foi comum, hoje é inadmissível, até por que não
somos donos do local e da mesma forma que vamos até uma mata, uma cachoeira,
uma pedreira, outras pessoas também vão e elas não são obrigadas a encontrar
nosso lixo.
Portanto, se você oferendar na
natureza, lembre-se de recolher tudo que a terra não consuma: recolha velas,
copos, garrafas, papéis, plásticos, enfim, tudo aquilo que não for biodegradável.
![]() |
| Imagem do google |
Observe a imagem acima e se
pergunte: Isso é oferenda? Você gostaria de estar com sua família na praia e
encontrar algo assim?
Antes de encerrar, convém
falarmos de outra oferenda que sempre causa muita polêmica: os despachos para
exus nas encruzilhadas... Isso também é desnecessário, já que podem ser feitos
no próprio terreiro, em frente a tronqueira, sem necessidade de sujar a rua ou
mesmo amedrontar as pessoas, afinal, muitas encruzilhadas, para nós, são
esquinas da casa, para alguém.
Até a próxima aula!
Leonardo Montes



Otima aula,gratidão.
ResponderExcluirExcelente irmão, muito obrigado por está série, que permite rever conteúdos e aprofundar em muitos campos com seus links. Gratidão!
ResponderExcluirGrato. Nos ajude, compartilhando!
Excluir