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É muito comum, na
Umbanda, as pessoas dizerem: sem exu, não se faz nada! Mas, será
mesmo? Reflitamos.
A Umbanda nascente não
contava com exus em suas manifestações. Estas começaram a surgir em algum
momento entre 1940/1950, quando pessoas vindas das Macumbas Cariocas (onde se
manifestavam exus), começaram a se integrar nas correntes de Umbanda que estavam
se popularizando neste período e, com isso, “trouxeram” seus exus em seu
“repertório mediúnico”.
No livro: O
Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, lançado em 1933, Leal de
Souza comenta brevemente sobre exus ligados aos trabalhos de Magia Negra. Não há
nenhuma citação sobre exus se manifestando em terreiros de Umbanda.
Na década de 1940,
surge o livro: Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda,
um congresso realizado em outubro de 1941, no Rio de Janeiro, onde diversos
representantes de terreiros importantes se reuniram para discutir aspectos
relevantes da religião, como: História, filosofia, doutrina, etc. Não há
sequer uma única citação a exus.
Assim, pergunto: se
os exus são tão importantes a ponto de nada se fazer sem eles, como fizeram os
primeiros terreiros de Umbanda que pelo menos durante 30 anos trabalharam sem exus?
Eu não quero, com esta
pergunta, desmerecer o trabalho destas entidades, até mesmo como alguém que
recebe exus e sabe da importância do trabalho que eles executam, seria um
contrassenso...
O que desejo é refletir
sobre essa frase generalizante e que produz uma compreensão errônea do trabalho
destas entidades.
Candomblé
No clássico: Orixás,
de Pierre Verger, podemos encontrar uma citação muito interessante:
“Exu é o
guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. É também ele que
serve de intermediário entre os homens e os deuses. Por essa razão é que
nada se faz sem ele e sem que oferendas lhe sejam feitas, antes e qualquer
outro Orixá, para neutralizar suas tendências a provocar mal-entendidos entre
os seres humanos e em suas relações com os deuses e, até mesmo, dos deuses
entre si.” (p. 36)
O texto se refere,
naturalmente, a Exu enquanto Orixá e não propriamente a exu-entidade, como é o
caso da Umbanda. Contudo, fica claro de onde surgiu este pensamento de que sem
exu não se faz nada: é uma herança do Candomblé Iorubano, cuja
aplicação se refere a uma particularidade de culto para o Orixá e não para a entidade!
Incorporação/Proteção
Alguns estudiosos
afirmam que, embora haja terreiros que não trabalhem com exus na incorporação,
isso não quer dizer que eles deixem de atuar fora dela. Realmente, isso é muito
comum: os exus podem atuar não apenas em terreiros, como em vários outros
locais sem que se saibam da sua existência.
Entretanto, outras
entidades também podem fazê-lo, como os pretos-velhos, caboclos, etc., e não se
vê ninguém dizendo que “sem preto-velho não se faz nada”, por que seria absurdo
pretender que todo trabalho espiritual, necessariamente, contasse com um
preto-velho.
Logo, sim, muitos exus
trabalham em terreiros onde não possuem permissão para se manifestar, em razão
da doutrina da casa, contudo, pretender que assim seja com todos os
terreiros, é um erro.
Difusão
Tal conceito também se
popularizou devido a pontos, como o famoso “Exu da Meia Noite”, cantado
pelo magistral J. B de Carvalho, cujo refrão é:
“Exu da Meia Noite
Exu da Encruzilhada
Sarava o povo da Umbanda
Sem Exu não se faz nada”.
Conclusão
Embora tenham chegado à
Umbanda pelas macumbas, os exus hoje se tornaram parte do repertório espiritual
da maioria dos terreiros, tendo seu trabalho espiritual mais ou menos definido,
de forma pública ou fechada, de tal forma que, naturalmente, se espera que os terreiros
trabalhem com estas entidades.
Contudo, não existe
essa obrigatoriedade!
Assim como não existe
obrigatoriedade em se trabalhar com marinheiro, boiadeiro, baiano, etc.
Existem médiuns que
nunca incorporaram exus e nem por isso são menos protegidos, já que os demais
guias podem realizar o trabalho de proteção e mesmo de descarrego.
Existem terreiros que
não trabalham com exus, nem mesmo espiritualmente, e a despeito do que pensam
uns e outros, aí estão há décadas prestando sua caridade sem o menor
problema...
Que os exus sejam bem
aceitos na Umbanda, é indiscutível... Contudo, pretender que sejam imprescindíveis
para que um terreiro exista, é exagero.
Leonardo Montes

Muito bom. Concordo plenamente.
ResponderExcluir~Gabriel Oliveira.